Polvo, Hortelã e Limão Siciliano

Aproveitando a ceia de natal na praia

Vou mostrar uma coisa que fiz hoje de manhã pro almoço. Nada de muito complicado, já que aqui em Santos o sol está fazendo pururuca das pessoas na rua e não quero de jeito maneira passar horas na cozinha.

Minha vó cozinhou um polvo gigante em uma panela de pressão com dois copos de vinho branco, durante 10 minutos. Saiu lindo de lá, em um roxo vivo e muito, mas muito macio. Olhando pra nobre criatura – uma das minhas favoritas que vem do mar – pensei em algo bem leve e fresco, que servisse tanto como guarnição, como algo pra se beliscar entre uma cerveja e outra. Aproveitei o lindo pé de hortelã que existia por sorte no lugar, somei uma coisa com a outra e a idéia me veio.

Salada de Polvo, Hortelã e Limão Siciliano

Ingredientes:

- 1 polvo grande inteiro

- 1 punhado grande de hortelã

- 1 limão siciliano grande

- Sal a gosto

- Pimenta-do-reino moída na hora a gosto

Modo de Preparo

Pra não morrer desidratado de tanto suar na cozinha, a idéia é fazer tudo rápido da forma mais simples possível. Comecei escolhendo a hortelã, que estava linda, bem verde e com folhas grandes.

Quem disse que precisa de espaço?

Pra ter uma combinação equilibrada é preciso dosar a hortelã, porque você não vai querer comer um polvo, que pareça bala de menta. Pra um polvo grande usei um punhado grande de hortelã.

Um punhado só...

Pique a hortelã até que vire uma pasta, pra que ela possa penetrar em todas as ventosas e espaços pequenos no nobre cefalópode, que é o polvo, caso você não se lembre das aulas de biologia da sétima série.

Bem picado mesmo!

Com o polvo é a mesma coisa, nada de muito carinho. Separe todos os tentáculos da cabeça do animal e os corte em pedaços médios, algo que você consiga colocar na boca inteiro, mas não precise ficar com ela cheia como um glutão. Em seguida corte a cabeça do polvo em tiras e em pedaços iguais aos dos tentáculos.

Parece um alien, mas é uma delícia

Junte então o polvo e a hortelã em uma vasilha e tempere com o suco de limão, a pimenta e o sal. É importante que a salada seja devorada, atacada, exterminada logo depois de ser preparada, já que o suco do limão e o sal vão desidratar o polvo. Por isso, tenha por perto um número grande de fãs do prato.

Mistura, mistura, mistura...

De volta pra areia.

Precisa de mais?

Licuri

Descobri o Licuri com Roberta Sudbrack

Mas não vá pensando que sou um daqueles blogueiros famosos que vai na casa do chef, fica tomando “champa” e conversando sobre a melhor forma de se confitar um pato. Descobri de forma mais humilde, lendo o blog da geniosa cozinheira.

Sempre achei demais a idéia de usar ingredientes tipicamente brasileiros na gastronomia, muito melhor do que ficar se entupindo de foie gras ou trufas e achar que está vivenciando uma experiência gastronômica única. Não! Você está sendo enganado, sendo levado a acreditar que produtos internacionais são tão importantes e melhores dos que existem por aqui. Somos inundados de sabores, cores, texturas e aromas o ano inteiro e o licuri é um desses ingredientes.

Conhecido também como nicuri, aricuri ou coquinho-cabeçudo para os íntimos,  tem em média 1,5 cm de diâmetro e é o fruto do licurizeiro, responsável pela fonte de renda de dezenas de famílias a gerações na região do semi-árido baiano. O licuri também aparece no norte de Minas Gerais, Alagoas e Pernambuco

A árvore de nome científico Syagrus coronata é uma palmeira de dez metros que altura, também conhecida como palmeira solitária, de onde pendem cachos com mais de mil coquinhos. Cada palmeira pode ter de uma vez até oito cachos.

A fruta, um pequeno coquinho de polpa amarela, é rica em cálcio, magnésio e betacaroteno, alem da grande concentração de cobre, zinco e selênio na sua amêndoa.  Na cozinha – que é o que interessa por aqui – pode se tirar dele o leite de coco, licor, sorvete da polpa e da amêndoa, conservas, geléia, farinha, além de um óleo muito perfumado que pode ser usado tanto para cozinhar quanto para finalizar pratos.

Além do Licuri, outra iguaria – algo como “ o escargot brasileiro” – vem dele, pois é o lugar preferido pra besouros depositarem os seus ovos e darem origem a pequenas larvas que se alimentam da noz que existe dentro da fruta. Quando ficam gordinhas, vão para a panela soltando um perfume de coco com sabor marcante de licurí. Dependendo da região tem nomes como morotó, fofó, boró, bicho-do-coco e taparu.

Se você ficou curioso pra ver como são as tais larvas, vá até o incrível blog Como-se da nutricionista Neide Rego. Ela conta como jogou as larvas vivas na frigideira – sem óleo,  já que os bichinhos soltam um óleo natural da noz do Licurí – e temperou com flor de sal e mais nada.

Agora se o que você tem é vontade de experimentar pode comprar na Coopes, que é a cooperativa de produção da região do piemonte da diamantina, na Bahia. Criada em 2005 a cooperativa fica na cidade de Capim Grosso, onde as culturas da mandioca e do licurí predominam. A Coopes vendo o licurí verde, torrado, com sal, caramelado e o aromático azeite de licurí. Encomendar podem ser feitas pelo site www.coopes.org.br ou pelo telefone (74) 3651-0225, com envio para todo o Brasil.

Alguém por aí já provou?

Dicas, Ingredientes — Tags:, , , , , — Gustavo @ 24 de dezembro de 2009

O Festim dos Rigueirais – Parte II

Continuando…

Depois de cozinhar todas as carnes escorra o caldo do cozimento em outra panela. Reserve as carnes na panela onde foram cozidas com ela tampada, já que sem o líquido sua tendência em ressecar é maior. O caldo vai ser usado pra cozinhar os vegetais, garantindo mais sabor ao puchero.

Olha o caldo aí!

Quando você começar a cozinhar, deve seguir uma regra de ouro meu caro: Todos os vegetais devem ser cozidos até o meio do seu ponto. Pode parecer bobagem, mas faz toda diferença. Se você cozer até que eles estejam no ponto correto, mesmo fora do caldo eles vão continuar cozinhando e ficarão moles e opacos. Se você deixar no meio do ponto, quando eles voltarem pro caldeirão vão ficar com as cores e texturas corretas.

O processo de cozimento deve ser feito de forma lenta e com cuidado, nada de pressa. Se você tiver pressa todo o esforço feito lá trás não vai valer de nada. Vai ficar bom, mas não aquele “bom” que faz você viajar de volta a infância. Vá com calma, aprecie o processo.

Comece pelas cenouras

As cenouras...

Depois a abóbora

A abóbora...

As abobrinhas

As abobrinhas

O repolho

O repolho

A couve, em folhas inteiras

A couve

E por último, – ufa! – as cebolas…

As cebolas

Volte então o caldo e todos os vegetais cozidos à panela das carnes e deixe cozinhar em fogo lento até que tudo esteja macio, mas não se desfazendo.

O acompanhamento perfeito pra mim é arroz de açafrão e uma piscina de azeite…

O prato perfeito

E uma família que eu amo mais do que cozinhar.

Eles são todos malucos, mas eu amo cada um

O Festim dos Rigueirais – Parte I

“Então, o pessoal do Rio e do sul vem pra cá no final de semana, você tá livre dia 28?”

Foi assim que meu pai avisou de mais uma reunião de família. Sempre que os Rigueirais planejam se encontrar eu já começo a me coçar. Não por pensar em como vou me livrar daquela tia chata que você vê a cada mil anos e que sempre pergunta as mesmas coisas sacais de responder, mas sim por uma nuvem deliciosa de agitação e risada acompanhada pela promessa de muitas coisas gostosas e jarras de caipirinha.

Nessas datas sempre combino com meu pai de preparar algo bacana ou alguma coisa que requer mais atenção e cuidado como defumar ou assar um cabrito no forno de pedra que ele construiu no quintal. Dessa vez fui surpreendido por um “não, eu já sei o que vou fazer”, o que dava a idéia que algum prato incomodava o seu inconsciente gastronômico.

Dia 28 – um sábado de tanto sol que transbordava pelo céu – apareci como combinado e já fui chegando na boca do fogão onde o velho se concentrava e brandia facas e colheres de pau. Sobre a mesa muitos ingredientes, mas não consegui fazer nenhuma ligação entre eles e descobrir do que se tratava. Linguiça, carne de frango, carne de vaca, grão-de-bico, cebola, cenoura, repolho, abóbora, abobrinha, couve e  ocupavam o grande balcão de madeira que temos e as voltas com isso tudo, o velho.                                            “O que vou Vou fazer é o puchero que seu bisavó costumava fazer quando eu era criança, com todo inteiro ou rasgado”. Pronto, era o que eu precisava ouvir. Comida ancestral de família, de comer pensando em quem já se foi mais deixou um legado, um tesouro pra ser aproveitado entre os que ficaram.

Ofereci ajuda, mas ele recusou. Não insisti pois imaginei que aquilo seria como um regressão a infância, uma volta a cozinha e a comida da vó por ele. Só aparecia de vez em quando pra ver em que pé andavam as coisas.

O que foi para a panela primeiro foram as carnes. Em um caldeirão foram cozidos as carnes de frango e as lingüiças de forma lenta…

Primeiro o frango e as linguiças...

Em seguida o grão de bico foi somado e deixado cozinhando lentamente até que ficasse macio. Não tem um tempo muito certo, mas como sempre digo, o exercício da observação é sempre recomendável. Vá provando de tempos em tempos até que esteja no ponto.

Tem que ter paciência...

A carne de vaca – que nesse caso é músculo – deve ser cozida com a ajuda de uma panela de pressão por uns 40 minutos até que esteja macia.

Na Pressão!

E depois somada com as outras carnes.

Todos Juntos!

Como o putchero não foi feito em um dia, vou deixar o resto pra amanhã. Quem sabe até lá, você já não chegou até aqui?

Receitas — Tags:, , , , , , , , , , , , , — Gustavo @ 10 de dezembro de 2009

Mocotó, a Mesa dos Fundos e um Punhado de Blogueiros

Eu nunca tinha ido ao Mocotó.

Talvez você fique estarrecido em ouvir mas é verdade meus caros, nunca tinha colocado os pés na casa comandada por Rodrigo Oliveira pra ver e principalmente provar a melhor comida nordestina de São Paulo, como andam dizendo por aí. Nesse último final de semana, porém, a história mudou. Além de dar o ar da graça na Vila Medeiros – uma quebrada deliciosa que lembra onde cresci – participei do primeiro encontro dos blogueiros mais comilões da cidade.

Logo que cheguei deu pra ver que o lugar era concorrido e seguindo o raciocínio, a comida boa. Um mar de gente de espremia, acotovelava e retorcia na frente do lugar esperando por uma mesa ou só mesmo tomando cerveja e aproveitando os beliscos que ficavam expostos na frente da boqueta da cozinha.

Perguntamos pela mesa eu, Lara Januário e Julia Reis. Combinamos de ir até lá com a Julia dirigindo. A sorte foi que ela já tinha ido, por que senão, se perder por aquelas bandas pode ser bem complicado, o que graças a São Lourenço, não aconteceu. Procuramos pela mesa e o garçon nos guiou até os fundos onde o resto do grupo  – acho que éramos quase trinta – já aproveitava as caipirinhas, a cerveja de garrafa muito gelada – uma benção – e os quitutes do lugar.

Sentei e pedi um copo pra começar a beber e que ele viesse junto com uma cachaça. Peguei esse costume do namorado de uma amiga, um paraibano que me mostrou que a volúpia – a cachaça perfumadíssima da Paraíba, claro – era algo pra se tomar não em sorvos mas em pequenas bicadas entre uma cerveja e outra.

Como já estava me hidratando, comecei a tratar do estômago. Uma coisa que achei legal do cardápio é a opção de poder pedir porções bem pequenas dos pratos, sendo que dá pra fazer um menu-degustação de culinária nordestina. Comecei por uma coisa que janto às vezes em casa não por que é fácil de fazer, mas sim porque o sabor me faz lembrar a infância e a tem diversas texturas que te acertam como uma pedrada: Ovo cozido. Costumo comer os meus bem molinhos, como os que estavam sugeridos no cardápio, mas ao invés do sal e azeite, esses eram acompanhados de cebolinha, pimenta biquinho e uma paçoca de carne-seca. As texturas se combinavam com maestria, o sabor do ovo era forte  e fresco e a pimenta dava o seu recado. Uma entrada caipira-emocional pode se dizer.

Ovo caipira bem molinho

Em seguida uma coisa que muita gente tem nojo, asco, torce o nariz mesmo, mas que eu acho uma injustiça. O pobre do sarapatel é um só um cozido com os miúdos do porco junto com o sangue coagulado do animal. Pra mim os miúdos – da maioria dos animais – são as partes mais saborosas, mas infelizmente ainda sofrem muito preconceito por aqui. Sobre o sangue não tem muito o que falar, é uma coisa forte mesmo mas que se usa a muito tempo desde os primórdios da cozinha clássica francesa. Estava bem bom, com o molho na textura e cor corretas, bastante cebolinha e um sabor forte.  Fígado, coração e o bofe do porco estavam muito bem apresentados, cortados em elegantes cubinhos e acompanhados ainda de toicinho. Matei uma cumbuca pequena com um monte de farinha d’agua que me esqueci de perguntar da onde era.

É pesado mesmo...

Em seguida pedimos algo maior pra dividirmos e dar aquela forrada principal no estômago. Fomos de escondidinho de carne-seca e mandioca.

Escondidinho!

Eu vou falar algo que pode chocar, mas eu não achei nada demais. Estava gostoso, claro, mas o purê muito e a carne-seca não era rica em cebola, só tinha mesmo um susto dela. Pensei que ia ter mais requeijã, mas foi só aquilo mesmo que veio. A apresentação é que me chamou mais a atenção no prato. Um dourado uniforme do queijo de coalho que formavam uma renda.

E lá dentro...

E lá dentro...

O que aconteceu em seguida foi o que me fez sentir mais em casa. Eu já tinha comido bem, bebido mais ainda e carecia de um cochilo. Dei uma saída e fui até o carro da Julia me acabar de dormir numa tarde de vento morno e movimento da rua. Uma delícia.

Acordei com a Larissa me perguntando se eu não ia querer sobremesa. Como já tinha ouvido falar no sorvete de rapadura com calda de catuaba que tinha por lá, me pus de pé e caminhei de volta pro restaurante. O sorvete era demais, um sabor bastante suave de rapadura e não muito doce, tarefa que era cumprida com sobra pelos pedacinhos de rapadura que apareciam pelo sorvete. A calda tinha o gosto pronunciado da catuabamas a grosseria do álcool foi substituída por uma elegante fundo de cravo da índia. Muito saboroso e aromático.

Rapadura com catuaba

Rapadura com catuaba

Lembro que não falamos muito depois que saímos, só deixamos o silêncio e o caminho tomar conta das coisas e aproveitamos ao máximo aquela comida que ainda estava dentro da gente, cheia de amor e a lembrança de uma tarde deliciosa, falando sobre comida, comendo, bebendo e vivendo.

No final o Rodrigo me aparece com uma garrafa cheia de cachaça e lotada de favas de baunilha. Nomeada de francesinha a bebida era servida gelada e tinha mais uma cara de licor do que qualquer outra coisa. Eu não bebi, mas o resto do povo se esbaldou no digestivo.

Depois era só o final do domingo.

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