Belém Dia II – Ver-o-Peso e Maniçoba

Depois do Carimbó no rio Guajará, eu desmaiei na cama.

Dormir em Belém é uma coisa diferente. A noite, a temperatura fica na casa dos deliciosos 28 graus e tentar descansar em cima da cama fica parecido com tomar sol enrolado no edredom. Ou seja, qualquer pessoa que queira dormir o mínimo que seja e se manter saudável, tem um ar-condicionado.

Na manhã seguinte me pus de pé e abandonei o iglu que meu quarto havia se transformado. No mundo exterior, o termômetro marcava 38 graus. As 8 da manhã.  Tomei banho – o que se torna redundante depois de um tempo – comi uma tapioca com queijo do Marajó, algumas castanhas do Pará e tudo certo. Estava pronto pra encontrar aquele que nos últimos anos, só tinha ouvido falar. O lugar onde os ingredientes da floresta desembocam e você pode ter uma real visão de tudo aquilo que o nosso país tem de mais formidável em relação a ingredientes.

Visitar o Ver-o-Peso – ou Veropa para os locais – é mais do que ficar sabendo o que é Cumaru, comprar Pirarucu seco ou tomar açaí com peixe frito. É uma visita ao passado, aquilo do que o nossa terra é feita e o que já estava por aqui muito antes dos portugueses chegarem e começarem a trocar espelhinhos por cestos trançados, repletos de mandioca.

Por aqui não tem trufas, foie gras ou creme de leite. Tem Brasil e aquilo do que somos feitos e de onde pertencemos.

Entre todas essas coisas vi o açaí  branco, que apesar desse nome tem a sua polpa verde. O sabor – como também a cor – é muito parecido com o de Abacate, mas tem as mesmas características energéticas do açaí roxo.

Tem também o mingau de tapioca, que você pode comer puro ou com frutas. Bem quente e com um pouquinho de canela, é ideal pra rebater aquela ressaca arrasadora.

Mais a frente em uma barraca, estava um feijão que já havia visto em alguns cardápios de restaurante interessantes pela cidade, mas nunca encontrei pra comprar em São Paulo. Lá, ele estava num grande saco como se dissesse: “Estou aqui! Agarre o quanto puder e me leve pra casa!”. O feijão manteiguinha de Santarém, pequeno e saboroso, é perfeito pra compor saladas frias e farofas mais ricas.

Ali, pertinho do feijão,  estava um outro ingredientes que não podia ficar de fora, o Pirarucu. Pra minha surpresa não encontrei um só exemplar dessa espécie fresco, só mesmo salgado e vendido em mantas, recebendo na região o nome popular de “bacalhau da Amazônia”. E vou dizer, a diferença não é muito grande não. A carne é firme quando salgada e conversando com quem vendia, descobri que depois de dessalgada se desmancha em lascas, como um bacalhau. Olha esses filés altos de tanta carne!

Um pouquinho mais a frente, dentro de um balaio lindo trançado com palha, estava o paraíso do camarão seco. Mas era tanto, mas tanto, mas tanto, que eu fiquei me perguntando quanto Tacacá, Moqueca Paraense e afins dava pra fazer. Pra mim, a melhor forma de comer camarão seco é como petisco, um salgadinho natural e crocante vindo do mar.

E os suspiros grastonômicos não paravam por aí. A cinco passos diante, na barraca colada aos camarões, tinha tucupi suficiente pra toda uma vida. Ele é vendido assim, em garrafas de refrigerante, junto com um maçinho de jambu e chicória do Pará. Eu levei dez garrafas e ainda sim, acho que foi pouco.

Pra você que não sabe, o tucupi é o suco da mandioca brava, obtido quando ela é descascada, ralada e espremida no Tipiti, uma espécie de espremedor feito de palha trançada, típico das populações indígenas. O suco dessa mandioca, que é venenoso e rico em ácido cianídrico – ou popular cianeto – , perde a sua característica venenosa quando é fervido sem parar de três a quatro dias.

Seguindo pelo mercado, em frente a barraca de tucupi, tinha o maior concentração de jambu que eu vi na vida.  Eu tive que abraçar e chamar de meu, não teve jeito, mas claro que não levei esse monte pra casa. Comprei só uns três maços, que renderam uma boa quantidade depois de limpos.

A parte que eu mais gostei do jambu e não conhecia, foram as suas flores, que são mil vezes mais potentes que as suas folhas e dão um efeito anestésico na boca toda, e até um pouco no rosto. É uma sensação estranha, mas bem gostosa. Também conhecido como agrião do Pará, é muito utilizado também na cozinha amazonense, acreana e rondoniense, além de ser encontrado nas cozinhas do sudoeste asiático e Madagáscar.

Mais a frente, antes de chegarmos aos peixes,  existia a banca do “seu” Raimundo, que oferece a maior quantidade de pimentas de todo o Ver-o-peso. Os nomes são diversos: Olho de pombo, Cumari do Pará, pimenta de cheiro e por aí vai.

Mais gostosas que as pimentas e os molhos vendidos com elas é a prosa do seu raimundo, que tendo um jeito manso  e simples de falar, explica todas as maravilhas do mercado, de uma forma bastante particular e deliciosa de ouvir.

Seguindo pela barraca de pimentas e virando à direita, se entra na área destinada aos peixes pescados nos rios Amazônicos. Lá você encontra de tudo: Tucunare, Pirarucu, Tambaqui, mas o que me chamou mesmo a atenção foi o filhote, um peixe de longos bigodes, corpo acinzentado a barriga branca, mas de carne branca, delicada e muito saborosa, sem nenhuma espinha. Não consegui esquecer dele, desde a última vez que comi lá no Manjar das Garças.

Pela qualidade do peixe eu pensava: “Nossa, mas isso deve ser um tanto quanto caro, vai saber onde esse peixe vive”. Mas qual foi a minha surpresa? O peixe custa R$ 7,00 reais o Kg! Fala sério! SETE REAIS!

Comprei dois exemplares lindos, gordos, que deram filés altos e prontos pra ir pra frigideira.

E foi o que bastou pra eu me sentir completo e feliz. Carregado de sacolas, fui tomar um suco de Taperebá – ou Cajá como é conhecido na região sudeste – mas não consegui achar semelhança com o sabor que já havia provado antes e sempre detestei.

E ataquei um prato de Maniçoba, ou feijoada paraense. Ela é feita com todos os ingredientes tradicionais da feijoada: Rabo, orelha, pé, paio…A única diferença é que no lugar do feijão, é usado a maniva.

Lembra do tucupi, que é extraído da mandioca e precisa ficar três dias fervendo para eliminar o ácido cianídrico? A maniva é a mesma história, a diferença é que ela é a folha da mandioca, e precisa ficar sete dias fervendo, já que é muito mais venenosa.

Fico imaginando como os índios descobriram todas essas características e peculiaridades. Quantos deles encontram tupã, depois de poder provar um simples cozido?

2 Comentários »

  1. Belém é uma cidade gastronômica. Espero que volte para tomar o tacacá e o filé ao molho de cupuaçu com risoto de castanhas do pará.

    Nunca vi tomarem mingau de tapioca com frutas… mas vou experimentar! Destaque de sobremesas para o próprio açai grosso com farinha de tapioca e os sorvetes Carimbó / Maria Izabel e de Pavê de Cupuaçu da sorveteria Cairu.

    está convidado para voltar e, se quiser, eu te acompanho!

    Comment by Jazz @brabul — 23 de julho de 2011 @ 11:29
  2. Nem me diga, Belém é uma delícia! Em todos os sentindos…

    Quero voltar o mais rápido possível. O tacacá eu já tomei, ficou faltando só mesmo o filé. Hehehehehehehehehe…..O Mingau é a melhor coisa contra ressaca que já inventaram. Agora da sorveteria Cairu, sou praticamente tarado pelo de Taperebá. Vivo prometendo experimentar outros sabores, mas nunca consigo. Sempre vou em cima do bendito.

    Bjs!

    Comment by Gustavo — 24 de julho de 2011 @ 9:56

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