Mesmo diferente, Maniçoba é igualzinho a feijoada: Não tem como ficar acordado depois de comer. Com muita luta, me arrastei até o ar-condicionado pra me espichar e tirar aquela soneca de meio de tarde.
O cansaço do bater perna foi tanto, e a delícia pela maniçoba tamanha, que acabei repitindo exatamente o que tinha feito no almoço. Comi mais maniçoba no jantar e babei sem parar dentro do quarto-sibéria.
No dia seguinte depois de dormir quase 16 horas, não sei se por culpa do calor ou do cozido, me levantei quase na hora do almoço – que beleza! – já pensando na minha ida no Remanso do Peixe. Havia, junto com alguns amigos, reservado um menu degustação com a idéia de provar de tudo um pouquinho e conhecer mais das ideias do gente finíssima Thiago Castanho, mais do que um chef de cozinha, mas uma daqueles pessoas que você senta no bar pra beber e conversar sobre comida e todas as variáveis que permeiam o assunto.
E lá fomos nós…No meio da cidade inundada de sol rumamos a procura do lugar, que pra minha surpresa ficava em um bairro residencial, dentro de uma vila com pequenas casinhas. No fundo da vila, escondido, fica o restaurante dentro de uma casa com dois andares e mesas espalhadas por todos os cantos.
Informado o nosso propósito, fomos rapidamente acomodados no segundo andar do salão bem ao lado da cozinha, para o início do espetáculo.
Começamos com um bolinho de Pirarucu, recheado de queijo do Marajó (ou seja, de búfala) com molho de pimenta doce e finalizado com flor de sal. Empanado com farinha panco, aquela usada na culinária oriental, o bolinho estalava de crocante e tinha o recheio de peixe balanceado na medida, junto com o queijo. Veio só um, mas eu comia uns 300.

Seguindo a linha “petiscos pra comer, morrer e ir pro céu”, chegou um copo de carne de caranguejo com farofa de castanha do pará e pimenta biquinho. O que dizer? A carne, cozida e temperada com um vinagrete bem leve, tinha a maciez quebrada pelo crocante da castanha do Pará, em uma farofa com pedaços maiores e outros menores. Um sonho.

O últimos dos “tira-gostos” foi um camarão rosa do Amapá cozido no vapor, com um pirão bem leve de farinha d’agua, feito com o próprio caldo do camarão. Descobri depois que esse é um prato típico de lá, já que o estado é rico em crustáceos, inclusive os de água doce.

Comi os meus usando só as mãos, fazendo pequenos montinhos com o pirão, juntando com a ponta dos dedos e levando à boca. Os camarões tinham o constraste do macio da carne com o crocante da casca, sendo seu tempero suficiente somente para ressaltar o ingrediente. Coisa linda!
Depois das entradas – se bem que tudo tem cara de prato principal – foi hora daquele peixe lá do primeiro prato aparecer de novo, só que dessa vez na versão defumada.

Em um ponto que desmonta quando você encosta o garfo, mas completamente cozido e suculento, o Pirarucu transborda de sabor, sendo potente na fumaça, porém preciso e elegante. O prato era ainda acompanhado por castanha do Pará e uma bananinha da terra assada com casca e tudo, em baixa temperatura, o que garantia uma textura cremosa e uma cor dourada de saltar os olhos.

Depois desse dispautério de gostosura que todos na mesa já lembravam com saudade, isso me aparece…

Uma mini moqueca paraense que chegou borbulhando na mesa, em uma panelinha de barro! Dentro do Tucupi borbulhante e perfumadíssimo pelo Jambu e pimenta, havia uma posta de Filhote cozida com precisão e delicadeza. O peixe estava muito macio, mas se mantinha firme dentro do suco da mandioca.

Além da moqueca, havia um arroz de Jambu que deixava a boca molinha molinha e que acompanhou com maestria o peixe. Tava tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que eu pedi um pouco de farinha d’agua e acabei fazendo um pirão ali mesmo, aproveitando o calor da panela e o tucupi com gosto de peixe.

Daqui em diante, o que mais se via na mesa eram suspiros e sorrisos de orelha a orelha, algo como “não quero mais ir embora” ou “como isso pra sempre, todo dia, até morrer”. Todos estavam numa espécie de transe, não havendo muita comunicação ou mesmo vontade de falar. Só o silêncio se fazia presente e com ele, veio a surpresa da sobremesa.
A primeira delas, um sorbet de caipirinha com calda de Taperebá (eba!) e tapioca caramelizada

Fabricantes de sorvete, duas palavras sobre sorbet de caipirinha pra vocês: Façam igual! O refrescante do limão combinado divinamente com o ardido da cachaça e a calda de Taperebá, da um azedinho doce incrível ao conjunto. Pra brincar um pouco com a textura, os dois são acompanhados por uma farinha de tapioca ultra crocante, envolvida por um caramelo bem claro. Se comendo de colher já era bom, se virasse picolé ia enjoar de vender.
Vou confessar que já estava bem satisfeito, mas quando a última sobremesa chegou, ela era tão linda, mas tão linda, que eu fui obrigado a comer. Que sacrifício! (até parece).

Lembra do queijo do Marajó que veio dentro do bolinho de Pirarucu? Dessa vez ele apareceu tostadinho e cremoso, acompanhado de uma banana ouro caramelada, paçoca de amendoim e geléia de Cupuaçu. Por cima de tudo, havia uma fatia de banana desidratada, revelando todas as sementes e nuances de cor da fruta.
Mais uma vez, a diferença entre texturas deu o tom do prato: Banana e queijo macios – remetendo até ao “cartola” – tradicional doce pernambucano – com o crocante da banana desidratada e da paçoca. Os sabores eram simples, mais intensos e verdadeiros, mostrando mais uma vez que a aplicação da técnica correta e a escolha de ingredientes de qualidade fazem toda a diferença. A idéia não é cozinhar, mais sim ressaltar o que se come.
E foi isso. Sem tirar nem por, um dos melhores almoços que já tive.
O problema foi depois dessa comilança, chegar em casa sem bater o carro, tamanho o momó (preguiça de acordo com o dialeto Belenense). Laércio, nosso anfitrião a guia na cidade que o diga
