Nataleta, o Natal Fora de Época

Então tá.

Imagine de novo que você tem mais ou menos uns sete anos, é véspera de natal e não para de chegar gente na sua casa. Mas não para de chegar gente mesmo, vindo nessas seu tio bigodudo e engraçado que você só vê nessa época, até aquela sua prima que a cada ano que passa, fica mais “interessante de ver” digamos assim.

Não imagine os presentes, os penteados ou mesmo os jogos de cabra-cega não tão inocentes, mas sim as panelas, travessas e cumbucas que vinham junto com as visitas, que faziam questão de trazer o que faziam de melhor, ou pelo menos achavam que faziam. Salpicão, Tender, Peru, Lombo, Rabanada, Pavê….A lista não tinha fim. Um sonho.

Imaginou? Agora imagine essa ceia num sábado friorento e mal humorado de Junho.

Meus caros, com vocês a Nataleta!!!!!

A idéia surgiu com um punhado de amigos que inundados das boas lembranças de garfo e faca, mas muitos desgostosos de ter que esperar até Dezembro pra devorá-las, se juntam todos os meses de Junho pra atacar um Tender com abacaxi e arroz com passas.

Pra você que lembra mais de como sua mãe decorava o peru com fios de ovos no natal de 1991, do que se ganhou um pogobol ou não naquela 25 de Dezembro, sugiro que você faça uma. Afinal, o que se tem melhor pra fazer do que juntar os amigos, comer, beber e dar risada?

Uma conversa daqui, alguém que empresta a casa dali e pronto.

Tudo se resolve.

Por Tutatis! Capelettis de Javali!

Aconteceu em uma tarde dessas onde o frio é cruel e você só sente vontade de beber garrafa atrás de garrafa do milagre que escorre pra fora dela, seja ele qual for.

Recebi um telefonema que depois de uma breve conversa, virou um convite para conhecer algo não só singular, mas também pra ter certeza que ainda existem muitas coisas a se descobrir aqui e ali, entre os prédios cinzas da cidade e o céu esfumaçado e brilhante pelas lâmpadas de sódio.

Depois de trabalhar as oito horas que o contrato manda, me enfiei dentro do trem e sacodi um pouco pra cá e pra lá, até chegar no que realmente interessa:

Tá certo, não é nada de comer eu confesso, só mesmo uma porção de livros de arte que não tinha como não abraçar e querer ficar lendo e babando em cima. Mas como pra isso eu ia precisar de um bocado de vinho e tempo, vamos deixar pra outra hora.

O motivo principal de toda essa história é mostrar a vocês, caros leitores glutões, essas belezuras aqui:

Dai você pensa: Capeletti! Grande coisa! Comi ontem na casa da minha avó!

Mas nããããããããããããããããoooooooo!!!! São capelettis de javali meus caros!

A responsável por essas belezas é a minha amiga Adriana Aranha, que os faz na sua casa como todo o esmero e atenção. E sabe qual é a melhor parte? Você pode encomendar a quantidade que quiser, de kg a toneladas, e ela entrega pra você fresquinhos, com a massa recém sovada e o recheio de derreter na boca.

Acompanhei a coisa toda de perto: Como o monte de farinha e ovos virou como mágica uma massa fininha, depois de sovada e passada na máquina de macarrão

Como eram feitos com a maior dos caprichos…

E depois enrolados um a um, como manda o figurino

Precisa dizer mais?

Apesar de contar como a coisa é feita, não vou colocar nenhuma receita por aqui, afinal de contas, se alguém tem todo esse trabalho e amor, nada melhor do que recompensa-la com algum pra que ela possa continuar em frente e você, possa continuar aproveitando essa belezura em casa.

Se você já está pensando “como é que eu descolo isso?”, basta escrever para a Adriana, no adriana@aranha.art.br e fazer o pedido de acordo com a sua fome. O pedido mínimo é de 500 gr (que serve bem duas pessoas) pelo preço de R$ 40.00 reais. Uma bagatela!

Acho que vou fazer os meus com manteiga de sálvia e mel…

Belém – Ainda no dia III – Tacacá no Final da Tarde + Sorveteria Cairu

Depois do momó (consulte a gíria local de Belém pra saber o que é) do almoço no Remanso do Peixe, não tive outra saída se não ir pra casa, me atirar na cama e babar de dormir por longas horas. No meio do sono – daqueles que o corpo pesa uma tonelada, mas você se sente flutuando por aí, me acordaram pra – lógico – ir comer uma das coisas pelas quais Belém é conhecida: Tacacá

Em um pulo me pus pronto, ventindo a camisa e calçando os chinelos ao mesmo tempo, indo de encontro com o fumegante caldo. Pra quem não sabe, o Tacacá serve pra  – pasmem – diminuir o calor dos quentes e cotidianos dias belenhenses. No dia em que fui tomar o quitute, a temperatura estava na casa dos agradáveis 33 graus, com uma umidade de cortar com a faca.

Feito com tucupi – aquele líquido de cor amarelo vivo extraído da mandioca, lembra? -  e guarnecido com jambu, chicória-do-pará, camarão seco e goma de tapioca, é um dos pratos mais tradicionais da cozinha paraense, sendo consumido diariamente.

Se você está pensando “mas nem a pau que eu vou tomar uma caldo fervendo nesse calor”, fique sabendo meu caro que esse é um artifício muito do bom pra aliviar aqueles dias onde o melhor lugar do mundo parece ser dentro da geladeira. Tomando um líquido quente – água, caldo, sopa, lava, enfim – você eleva a temperatura do seu corpo e a equipara com a do ambiente externo, ou trocando em miudos, você para de transpirar e de ter aquela sensação de que vai morrer.

Com uma cor amarelo viva e guarnecido com todas aquelas coisas que descrevi acima, o caldo vem de pelar o seu da boca dentro de uma cabaça indígena, apoiado em uma cesta de vime trançado para que você não queime as mãos.

É tão quente, mas tão quente, mas tão quente, que no começo você não consegue beber direto da gamela. Então ataquei usando um palito de madeira, comendo primeiro as guarnições do caldo.

Com a coisa mais calma, consegui atacar aos goles, sorvendo direto pra dentro.

Vou fala que no começo não é fácil tomar algo muito quente em um ambiente que só dá vontade de suco geladinho e caipirinha de Cupuaçu - minha preferida – mas com o tempo, você começa a se sentir melhor e o calor fica bem mais ameno. Tanto que você para até de transpirar, coisa que eu pensei ser impossível naquelas terras. É a cultura popular em ação!

Enquanto tomava o Tacacá, vi uma vitrine com alguns salgados que de tão bonitos, fui dar uma olhada mais de perto. Acabei descobrindo alguns sabores um tanto inusitados, além daqueles que já tinha visto por aí…

Você já viu algum pastel de forno de Pirarucu com Jambu?

Ou quem sabe de Pato com Jambu?

Achei a idéia tão diferente que comprei cada um dos quatro sabores pra provar e vou dizer, se alguém tiver essa idéia por aqui vai ter muita gente deixando de comer esses salgados prontos de boteco que são de dar pena.

Terminado o Tacacá, era hora de atacar alguma coisa pra rebater a fumegante iguaria. Acabei indo na mais tradicional sorveteria da cidade chamada Cairu, que tem sabores um pouco diferentes daqueles que você já viu.

Fabricando cada um dos sabores que vende – e são mais de 50 – a sorveteria explora as excepcionais frutas amazônicas, oferecendo das mais conhecidas, até aquelas que parecem nome de remédio.

Pra não perder o costume, como você já deve ter visto por aqui, pedi um de Taperebá o qual a base era de água. Isso fazia com que a massa ficasse muito mais leve e o gosto e perfume da fruta mais pronunciados, além de ressaltar a cor amarelo “olha pra mim, eu estou aqui”

E foi isso. Só restava ver o final da tarde com as mangueiras balançando pelo vento e dizer tchau pra Belém do Pará, um dos lugares mais incríveis, gostosos, cheirosos e ricos que eu já vivi.

Belém Dia I – Manjar das Garças e Carimbó

O avião vem voando baixinho e aos poucos a paisagem vai tomando forma. Mato, mato, mato, mato. Durante muito tempo só o que se vê é a imensidão da floresta, que desemboca em um mundo de água de não tem mais fim.

Depois começam as palafitas, seguidas por muitas casas e pra minha surpresa um mar de prédios, que fazem contraste com os barcos de pesca que passam levando todo o tipo de ingrediente que se pode encontrar.

Daí você sai do avião e sente o calor. Mas não é um calor como aqueles que se sente por aqui, mas um calor diferente, que lhe abraça, embebe de suor e faz você começar a sorrir sem parar. Fora do aeroporto com os botões da camisa já quase todos abertos e abraçado pelo quente-doce-púrpura de laranja da cidade, você começa a se sentir bem. Quase assado, mas muito bem. E começa a sentir fome, o que me levou pra primeira mesa que me sentei na cidade.

O Marjar das Garças, onde fui e me acabei, é um restaurante que fica no Mangal das Garças, um lugar que une turismo e cultura dentro da cidade, além de ser uma área de preservação para a fauna e flora locais.

Além do restaurante, você pode ir a um mirante com vista para o rio e ficar observando todas as belezas que ele tem pra mostrar, desde os pássaros que são constantes no lugar até os pequenos seres que vivem na vegetação costeira e no rio e fazem parte da descomunal massa viva do lugar.

Melhor que ver, só comer, o que me pus a fazer em seguida. Entrando no restaurante, que é como uma taba indígena muito grande (aquela lá da primeira foto), vi que os pratos ficavam no sistema de bufê. Curioso que só, fui ver antes aquilo tudo que em pouco tempo ia fazer parte de mim e me fazer feliz pelo resto da tarde.

Tinha Pato no Tucupi forrado no Jambú

Farofa de Muçuã , que nada mais é que a carne de uma tartaruguinha muito pequena, catada e misturada na farinha d’agua

Filhote assado no Tucupi (uma pena que não dá pra encontrar esse peixe em São Paulo)

Bolinhos de Tambaqui, que desmanchavam na boca

Banana da Terra Assada, como eu nunca comi igual

E o mais gostoso palmito pupunha que já provei  (vai ver porque era pupunha MESMO)

O resultado foi um abraço de prato, bem depois de colocar os pés na cidade

E com o calor que estava, pedi um suco pra rebater. Esse era de Bacuri (ainda não tinha ficado viciado em Taperebá)

Comia e dava risada, comia e dava risada.  E esse era ainda a primeira tarde de tantas…

Depois era só sol, vento e Carimbó, num passeio de barco pelo rio Guajará.

Manjar das Garças

Parque Ambiental Mangal das Garças, Rua Dr. Assis S/Nº.

Belém – Pará

Telefone: (91) 3242.1056

De Terça à Sábado: 12h às 16h / 20h às 2h
Domingo: Somente almoço.

Dá o Pé Louro

Mais legal que achar uma árvore de Maple Syrup na esquina da Rua Goiás com a Avenida Angélica, é encontrar um Loureiro que sua vó lembra de criança.

A descoberta – pelo menos da minha parte – aconteceu no começo desse ano enquanto dava um volta pelas ruas de Santos, onde ela mora. Quando ví quase não acreditei no tamanho desse “pé”, que era na verdade uma árvore linda, fazendo com as largas folhas uma sombra muito gostosa, na tarde quente de Janeiro

Minha vó – que lembrava tão bem da árvore por ter morado perto dela – disse ter brincado lá com amigos de esconde-esconde nos anos 40, servido de lugar para o pegador contar enquanto todos se escondiam. O incrível é que quando ela era pequena, a árvore já era grande, o que indica uns 200 anos de idade.

O Louro ou Laurus nobilis é uma espécie originária do mediterrâneo que pode atingir mais de 20 metro de altura, como era o caso desse.

Suas folhas são largas e muitos vistosas, desprendendo no ar um perfume característico. Faz você jurar que todas as casas do bairro estão cozinhando feijão ao mesmo tempo. O que eu não sabia é que além de ser uma especiaria das mais gostosas, o Louro é altamente digestivo, sendo o seu chá recomendado pra aqueles que tendem a ficar “conversando” com o Vatapá de sábado a tarde.

Mas cuidado! Se você não ter certeza se é de fato um pé de louro aquela planta linda do seu vizinho, é melhor você continuar comprando as folhas no supermercado. O Nerium oleander ou Loureiro-rosa, serve unicamente para ornamentação, sendo todas as partes da planta extremamente tóxicas, transformando o bacalhau a Gomes de Sá  numa arma de destruição em massa. Se você tem dúvida, é melhor não arriscar.

Além dessa espécie de Louro que encontramos por aqui, existe espécies endêmicas no arquipélogo dos Açores em Portugal com o nome de Laurus azorica e outra encontrada nas ilhas Canárias (Espanha) e da Madeira (Portugal) chamada Laurus novocanariensis. Dessa última retira-se um óleo com potentes agentes anti-inflamatórios utilizado como remédio caseiro, podendo o litro alcançar preços de mercado estratosféricos.

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