Belém – Ainda no dia III – Tacacá no Final da Tarde + Sorveteria Cairu

Depois do momó (consulte a gíria local de Belém pra saber o que é) do almoço no Remanso do Peixe, não tive outra saída se não ir pra casa, me atirar na cama e babar de dormir por longas horas. No meio do sono – daqueles que o corpo pesa uma tonelada, mas você se sente flutuando por aí, me acordaram pra – lógico – ir comer uma das coisas pelas quais Belém é conhecida: Tacacá

Em um pulo me pus pronto, ventindo a camisa e calçando os chinelos ao mesmo tempo, indo de encontro com o fumegante caldo. Pra quem não sabe, o Tacacá serve pra  – pasmem – diminuir o calor dos quentes e cotidianos dias belenhenses. No dia em que fui tomar o quitute, a temperatura estava na casa dos agradáveis 33 graus, com uma umidade de cortar com a faca.

Feito com tucupi – aquele líquido de cor amarelo vivo extraído da mandioca, lembra? -  e guarnecido com jambu, chicória-do-pará, camarão seco e goma de tapioca, é um dos pratos mais tradicionais da cozinha paraense, sendo consumido diariamente.

Se você está pensando “mas nem a pau que eu vou tomar uma caldo fervendo nesse calor”, fique sabendo meu caro que esse é um artifício muito do bom pra aliviar aqueles dias onde o melhor lugar do mundo parece ser dentro da geladeira. Tomando um líquido quente – água, caldo, sopa, lava, enfim – você eleva a temperatura do seu corpo e a equipara com a do ambiente externo, ou trocando em miudos, você para de transpirar e de ter aquela sensação de que vai morrer.

Com uma cor amarelo viva e guarnecido com todas aquelas coisas que descrevi acima, o caldo vem de pelar o seu da boca dentro de uma cabaça indígena, apoiado em uma cesta de vime trançado para que você não queime as mãos.

É tão quente, mas tão quente, mas tão quente, que no começo você não consegue beber direto da gamela. Então ataquei usando um palito de madeira, comendo primeiro as guarnições do caldo.

Com a coisa mais calma, consegui atacar aos goles, sorvendo direto pra dentro.

Vou fala que no começo não é fácil tomar algo muito quente em um ambiente que só dá vontade de suco geladinho e caipirinha de Cupuaçu – minha preferida – mas com o tempo, você começa a se sentir melhor e o calor fica bem mais ameno. Tanto que você para até de transpirar, coisa que eu pensei ser impossível naquelas terras. É a cultura popular em ação!

Enquanto tomava o Tacacá, vi uma vitrine com alguns salgados que de tão bonitos, fui dar uma olhada mais de perto. Acabei descobrindo alguns sabores um tanto inusitados, além daqueles que já tinha visto por aí…

Você já viu algum pastel de forno de Pirarucu com Jambu?

Ou quem sabe de Pato com Jambu?

Achei a idéia tão diferente que comprei cada um dos quatro sabores pra provar e vou dizer, se alguém tiver essa idéia por aqui vai ter muita gente deixando de comer esses salgados prontos de boteco que são de dar pena.

Terminado o Tacacá, era hora de atacar alguma coisa pra rebater a fumegante iguaria. Acabei indo na mais tradicional sorveteria da cidade chamada Cairu, que tem sabores um pouco diferentes daqueles que você já viu.

Fabricando cada um dos sabores que vende – e são mais de 50 – a sorveteria explora as excepcionais frutas amazônicas, oferecendo das mais conhecidas, até aquelas que parecem nome de remédio.

Pra não perder o costume, como você já deve ter visto por aqui, pedi um de Taperebá o qual a base era de água. Isso fazia com que a massa ficasse muito mais leve e o gosto e perfume da fruta mais pronunciados, além de ressaltar a cor amarelo “olha pra mim, eu estou aqui”

E foi isso. Só restava ver o final da tarde com as mangueiras balançando pelo vento e dizer tchau pra Belém do Pará, um dos lugares mais incríveis, gostosos, cheirosos e ricos que eu já vivi.

Camarões com Champagne e Erva-Doce

Eu amo jantares no meio da semana

Nada mais gostoso fazer de conta que quinta-feira virou sábado e ir na casa de quem se gosta dar risada, beber e cozinhar alguma coisa gostosa. Apesar de parecer ser uma coisa simples de fazer – ir na casa de alguém pra um jantar – você só consegue fazer de uma forma completa onde possa tirar os sapatos e ficar andando descalço pela casa ou quando pode abrir a geladeira do cujo e reclamar com gosto, de que ele não comprou cerveja suficiente pra ocasião ou que anda comendo margarina, arremessando o pote da desgraça moderna no lixo.

As compras eu havia levado de casa, mas o camarão meu pai havia trazido de Vitória, pra onde ele se mudou. Umas coisa lindas: Com a carne firme, coloração rosada e um cheiro levemente adocicado mostravam que tinham sido tirados do mar a muito pouco tempo e que iam casar muito bem com o molho delicado que havia escolhido. O trabalho maior na receita é fazer o molho, depois dele pronto a coisa toma forma sozinha deixando você livre pra aproveitar. Tem coisa melhor?

Camarões com Champagne e Erva-Doce

Ingredientes:

–  1 Kg de camarão

– 2 Erva-Doces grandes

– 2 cebolas grandes

– 200 ml de champagne (não precisa ser de primeira)

– 30 gr de manteiga

– 200 ml de creme de leite fresco

– Cebolete a gosto

– Sal a gosto

– Pimenta do reino moída na hora a gosto

Modo de Preparo:

Vamos lá, essa vai ser muuuuuito fácil e das melhores. O único trabalho prévio que você vai ter é picar a erva-doce e a cebola. Depois disso, é só alegria. Pique ambas em cubos pequenos e deixe reservado. Quem fez esse trabalho foi meu pai, já que nessa hora eu tinha saído pra comprar mais cerveja.

Com tudo picado comece aquecendo uma panela média com a manteiga e acrescentando a cebola, fazendo aquele barulhinho gostoso.

Frite a cebola na manteiga com o fogo alto, esperando que ela murche e fique translúcida. Quando isso acontecer, é hora de entrar com a erva-doce.

Com o fogo ainda alto frite a erva-doce até que ela fique macia, mas não desmanchando. Tenha sempre em mente que você ainda vai levar todos esses ingredientes ao forno, ou seja, se eles ficarem completamente cozidos vão desmanchar no calor do forno e não formar um molho com diferentes texturas e uma personalidade vibrante.

Quando a erva-doce ficar macia mas ainda crocante – não dá pra saber se você não provar! – acrescente o champagne e reduza o fogo até o mínimo.

Reduza o champagne até a metade do seu volume original, ou seja,  deixe ferver até que ele seque pela metade. É importante que você faça isso em fogo baixo, pois a cebola e a erva-doce vão ter tempo de soltar o seu sabor e assim compor todas as notas do molho. Não fique com pressa ou aflito, tenha paciência que vale a pena.

Quando o volume do champagne baixar acrescente o creme de leite, quem tem a função de deixar o molho aveludado e brilhante.

Reduza o volume – lembra? – do creme de leite até a metade e com a ajuda de uma tesoura, pique a cebolete diretamente sobre o molho. Não precisa ficar exato, certinho, medido – coisa mais chata – só corte os pedaços do mesmo tamanho que está tudo certo.

Acerte o sal e a pimenta-do-reino no molho, mexa para incorporar o cebolete e pronto, hora de casar ele com os camarões! Tempere os lindos bichinhos com sal e pimenta do reino a gosto…

E cubra-os com o molho, não deixando nenhum de fora.

Pré-aqueça o seu forno a 180 graus e mande os camarões pra dentro. E importante que nessa hora você não saia de perto do forno, pois como o camarão é muito delicado ele cozinha muito rápido. Não existe um tempo exato, mas leva cerca de 3 minutos – sério, é rápido assim! – pra que eles fiquem prontos. O melhor forma de saber se estão corretos e pressionando com o dedo e sentindo a textura da carne. Ela deve estar macia, mas levemente resistente.

Quando atingir o ponto, sirva na mesma hora ou o calor do molho vai continuar cozinhando os coitados.

Bem que a semana podia acabar na quinta.

Dicas,Receitas — Tags:, , , , , , , , — Gustavo @ 30 de julho de 2010

Praia, Julia Reis e Lulas com leite de Coco, Curry e Gengibre

Quem já passou final de semana em casa de praia alugada sabe como é

Pouco espaço pra dividir, pia transbordando de lata de cerveja, alguma – e eu estou sendo bonzinho – louça pra lavar e um vivencia um pouco fora do comum com todos os seus amigos do peito, rindo o tempo todo de qualquer coisa que apareça ou aconteça, por mais normal que ela seja. Tá certo que certo abuso alcoólico acontece de vez em quando – olha eu sendo bonzinho de novo – mas o que sempre rola são as tentativas de se fazer alguma coisa pra comer.

Numa dessas tentativas de fazer algo de bom com certa rapidez – porque você não quer perder aquela caipirinha em potes variados de mantimentos que está rolando na piscina – eu e a espoleta Julia Reis do Boa de Garfo, que fazia parte dos arruaceiros da casa, mandamos a duas mãos uma lula com molho de curry que ficou campeã.

Encontramos as lulas no mesmo dia que foram pescadas. Estavam muito bonitas, com a carne bem firme e brilhando de tão frescas. Compramos uns punhados e fomos pra cozinha aprontar a coisa toda.

Lulas com leite de Coco, Curry e Gengibre

Ingredientes:

– 2 Kg de lulas

– 2 cebolas grandes

– 4 dentes de alho

– 30 gr de gengibre

– 2 garrafas de leite de coco

– 50 gr de manteiga

– Curry a gosto

– Sal a gosto

– Pimenta do Reino moída na hora a gosto

–   ½ maço de cebolinhas

Modo de Preparo:

Comece limpando as lulas. O que eu gosto nas lulas é que elas são quase 100% comentíveis. Com a ajuda das mãos, separe os tentáculos da cabeça/corpo do animal. Nessas duas partes, você tem que prestar atenção no seguinte:

Dos tentáculos retire o bico da lula, que é a parte central que fica embaixo de todos eles. Não é nada fácil de extraí-lo, basta empurrar de dentro pra fora com a ajuda dos polegares. Lave todos  em água corrente e reserve.

Do cabeça/corpo você deve retirar a “pena” interna que existe dentro da cabeça do animal.  A “pena”, que é de queratina, tem esse nome por ser muita parecida com as penas das aves, sendo responsável pela sustentação do corpo da lula, já que ela não tem esqueleto. Ela pode ser facilmente encontrada e retirada com a ajuda dos dedos. Depois, com a ajuda de uma faca, raspe a pele roxa que cobre a carne, a qual sai com bastante facilidade.

Lave as lulas em água corrente pra retirar qualquer vestígio de pelo ou pena – parece galinha, mas não é! – e corte em anéis de três cm de largura.

As lulas já estão em ordem, agora é hora do molho. Comece picando a cebola em cubos médios, o alho em fatias finas e ralando o gengibre para tirar toda a sua polpa, deixando as fibras de lado. Olha que é a ajudante nessa parte!

Aqueça a manteiga em uma panela média e frite primeiro a cebola até que fique translúcida, seguido do alho e do gengibre. Junte então o leite de coco e cozinhe em fogo brando, até que o molho fique cremoso e perfume a cozinha toda.

Agora é o momento de ter atenção. Todo mundo sabe que não tem coisa mais troncha, ruim, desprezível e tosca do que aquela lula borrachuda, que parece um pedaço de látex na boca. Pra não correr esse risco faça o seguinte: Eleve o fogo até o molho começar a ferver e borbulhar loucamente. Nesse ponto, desligue o fogo e acrescente a lula – tentáculos e cabeça – pra dentro do molho, tampe a panela e espere de 3 a 4 minutos. Assim, ela cozinha só no calor do próprio molho, que no começo está forte, mas vai diminuindo conforme o tempo passa.

Depois desse tempinho, veja se o cozimento está ok. Caso seja necessário, aqueça rapidamente o molho e desligue em seguida. Nunca, jamais, ever, ferva o molho com a lula dentro, ou a receita não vai servir nem como oferenda pra Iemanjá.

Com a lula pronta, corte as cebolinhas em fatias finas e misture as lulas, o que vai dar um colorido bem legal.

Agora é só preguiça.

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