Vinho pra Tudo: Robalo com Purê de Cenoura, Beurre Blanc de Erva Doce

“Não existe amor mais sincero do que aquele pela comida”. Bernard Shaw disse isso. Provavelmente sentado no fundo de algum pub em uma mesa carcomida pelo tempo, enquanto soluçava o último gole de cerveja, olhava pro fundo do copo e pensava na torta de rim que logo esfumaçaria o salão e chamaria a atenção dos bêbados habituais do lugar.

Eu amo comer. Vamos deixar isso bem claro. Mas também amo beber. E quando a Casa Flora me convidou pra cozinhar e beber ao mesmo tempo, não teve como dizer não.

Vinho pra mim é algo – não uma coisa, por favor – que transborda do copo na hora que você roda sobre a mesa, espalhando pelo lugar sua personalidade e vontades. Pode ser como alguém que faz você ficar abismado pela forma como sorri, uma amiga gostosa que usa um vestido de fácil acesso e convida você pra um passeio pelo jardim ou uma criança pequena que aperta a sua mão com medo, mas com a certeza de que logo, tudo vai ficar bem.

Vinho é como aquela montanha-russa foda pra caralho, mas que você não pode deixar de ir. Vale a pena cada instante.

Pra melhorar, só comendo algo que faça a gente fechar os olhos, se calar por um instante e só se sentir bem, seja com os amigos sentados a mesa ou mesmo sozinho, como tantas vezes eu fiz mesmo depois de voltar do restaurante, tendo passado horas e horas com o umbigo encostado no fogão, suando as bicas e atacando comanda atrás de comanda.

Cozinhei um robalo com purê de cenoura e beurre-blanc de erva doce que fez a minha alegria, como espero que tenha feito a noite de quem provou. Dessa vez, não tem receita, mas a minha pessoa e a gigantesca cabeça que ostento falando da experiência. Dá só uma olhada:

Ficou interessado? Dá pra saber aprender muito mais na página da Casa Flora.

Nataleta, o Natal Fora de Época

Então tá.

Imagine de novo que você tem mais ou menos uns sete anos, é véspera de natal e não para de chegar gente na sua casa. Mas não para de chegar gente mesmo, vindo nessas seu tio bigodudo e engraçado que você só vê nessa época, até aquela sua prima que a cada ano que passa, fica mais “interessante de ver” digamos assim.

Não imagine os presentes, os penteados ou mesmo os jogos de cabra-cega não tão inocentes, mas sim as panelas, travessas e cumbucas que vinham junto com as visitas, que faziam questão de trazer o que faziam de melhor, ou pelo menos achavam que faziam. Salpicão, Tender, Peru, Lombo, Rabanada, Pavê….A lista não tinha fim. Um sonho.

Imaginou? Agora imagine essa ceia num sábado friorento e mal humorado de Junho.

Meus caros, com vocês a Nataleta!!!!!

A idéia surgiu com um punhado de amigos que inundados das boas lembranças de garfo e faca, mas muitos desgostosos de ter que esperar até Dezembro pra devorá-las, se juntam todos os meses de Junho pra atacar um Tender com abacaxi e arroz com passas.

Pra você que lembra mais de como sua mãe decorava o peru com fios de ovos no natal de 1991, do que se ganhou um pogobol ou não naquela 25 de Dezembro, sugiro que você faça uma. Afinal, o que se tem melhor pra fazer do que juntar os amigos, comer, beber e dar risada?

Uma conversa daqui, alguém que empresta a casa dali e pronto.

Tudo se resolve.

A Língua da Vó Carmelita – Parte II

Depois de apalpadas, limpas e tratadas com muito esmero e carinho, a língua está finalmente pronta pra entrar na panela. Acredite, a parte mais complicada já passou, agora é uma suave e divertida ladeira abaixo, que termina numa mesa de almoço.

A Língua da Vó Carmelita – A parte que acaba com você comendo

Ingredientes

- As línguas que você limpou, independente da quantidade que sejam.

- 5 cebolas médias

- 4 folhas de louro

- 10 dentes de alho

- 1 litro de molho de tomate. Pode ser o de caixinha mesmo, mas se você teve esse trabalho todo, por favor, use um que você mesmo tenha feito. A diferença é gritante

- Azeite de Oliva extra virgem

- Sal a gosto

- Pimenta do reino moída na hora a gosto

Modo de Preparo:

O segredo dessa receita é fazer com que a língua vire um tipo de filet mignon, algo macio e tenro que dispute briga a tapa na mesa pelo último pedaço. Você só vai conseguir isso cozinhando-a muito bem, sem pressa ou afobação pra cima da pobre coitada. Comece o processo com uma panela de pressão, colocando as línguas, 3 cebolas médias cortadas em pedaços grosseiros, 7 dentes de alho inteiros e as 4 folhas de louro.

Se você tem medo, pânico, paura de panela de pressão, não precisa ficar assustado não. Basta você lembrar de uma regra simples: Panela de pressão que explode é panela com a válvula entupida. Ou seja, sempre que usar essa maravilha moderna que eu tanto amo e venero, verifique se a panela está com a válvula obstruída. Cubra a língua até a altura de dois dedos acima dela, o que garante um caldo bem bonito pra cozinhar a língua no final da receita, uma língua perfeitamente cozida e macia e um fogão inteiro, sem o risco de uma explosão de nível militar na sua cozinha.

Leve a panela de pressão ao fogo alto. Quando ela começar a fazer aquele barulinho gostoso de maria fumaça, abaixe o fogo e deixe cozinhando por cerca de 50 minutos.  Passado esse tempo, desligue a panela e deixe que ela perca a sua pressão naturalmente. Com a panela sem pressão, abra e retire as línguas, tendo o cuidado de não espeta-las com um garfo, o que danifica a sua carne e atrapalha no resultado final.  O visual não é muito bonito – ainda – mas o importante aqui é ter certeza que as línguas ficaram bem macias. Com a ajuda de um palito de dente, dê uma espetada – só uma mesmo! – pra sentir se a língua está no ponto. Caso esteja meio dura, sem problema. volte ela pra panela e cozinhe por mais 20 minutos.

Não jogue fora o líquido que está dentro da panela de pressão, pelo amor de deus! Ele virou um caldo com todos os sabores que saíram da língua durante o seu cozimento, como também o tempero dado pela cebola, alho e louro. Guarde-os em uma jarra e espere esfriar, guardando na geladeira depois de frio.

Partindo a língua ao meio, você consegue ver claramente que existe dentro da pele grossa, algo tenro e macio. É essa a parte que interessa!

Daqui pra frente é moleza. Com a ajuda das mãos e com a língua ainda quente, descasque a parte grossa da pele, revelando a carne macia que está aqui dentro dela.

Agora você tem finalmente o que interessa, a carne da língua! Corte em fatias finas e reserve.

Lembra daquela jarra linda de caldo que você guardou na geladeira? Tire ela de lá e dê uma olhada na parte de cima. Com o frio da geladeira toda a gordura subiu, deixando-o límpido e bastante leve. Com a ajuda de uma colher retire a gordura…

E fique só com  a parte que interessa.

Faça um molho de tomate com as duas cebolas e os três dentes de alho restantes, picando a cebola e o alho em pedaços médios. É importante não picar muito o alho, pois caso ele fique muito pequeno, irá queimar ao ser frito no azeite e todo o seu trabalho de dois dias vai ficar com um delicioso sabor amargo.

Aqueça uma panela grande com azeite de oliva extra virgem e frite primeiro a cebola, somando o alho quando ela estiver cozida e translúcida. Quando o alho ficar levemente dourado, acrescente o molho de tomate e as línguas fatiadas.

Junte então o caldo do cozimento da língua  a fim de deixar o prato cozinhando por mais alguns minutos até que comece levemente a se desmanchar. Não precisa colocar todo o caldo, só use o seu bom senso pra garantir que o molho não fique pastoso demais ou uma piscina, afinal, você está fazendo um cozido, não uma sopa de domingo.

Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora a gosto e mais nada, finalmente você pode atacar!. O acompanhamento que mais gosto de servir esse prato é purê de batata, que misturado com o molho, preenche bem a lacuna da pergunta “última refeição na terra antes do apocalipse”.

A Língua da Vó Carmelita – Parte I

Apresentando mais um dos pratos clássicos da família Rigueiral.

Acho que como esse prato desde que me conheço por gente, um gordinho que desde pequeno já debruçava sobre a pia, mexendo no que não devia – pelo menos era o que eles pensavam – e levava broncas por estar fazendo milhões de perguntas ao mesmo tempo pra minha avó.

Se você nunca comeu língua e está fazendo uma cara escrota nesse exato momento, saiba que eu já vi muita gente ser tapeada com a maior facilidade. A mesma vó que fazia a língua, garantia que tinha feito um outro cozido pra aqueles que não eram fãs – ainda – desse nobre miúdo. Quando a pessoa tinha se infartado e mal conseguia respirar, minha vó contava a verdade o que gerava muitas risadas e reações das mais adversas.

Como esse é um processo dos mais longos – o jeito certo de fazer é em dois dias, um pra limpar e cozinhar a língua e outro pra finalizar – vou mostrar primeiro como deixar tudo no jeito pra você mandar a língua pra panela.

A Língua da Vó Carmelita

Ingredientes:

- 8 línguas de boi (imagine que cada língua serve duas pessoas. Adéque a receita de acordo com o seu eleitorado).

Modo de Preparo:

Bom, pra você que nunca viu, apresento a língua.

Não tem muito o que falar, é isso aí mesmo. Pode parecer bizarro, nojento, estranho, peça de macumba e afins, mas acredite, é uma das partes mais gostosas do nosso animal predileto. Uma língua boa pra se comprar deve ter uma coloração levemente rosada, sem qualquer tipo de gosma ou líquido saindo dela, ausência de cheiro e textura firme.

Essa parte preta no começo da língua é normal e se você reparar, a textura nela é mais áspera, já que é com ela que o boi agarra o que ele vai comer.

Mas chega de papo, vamos ao que interessa. O primeiro passo é retirar a garganta que vem junto a língua. Pra fazer isso, vire a língua deixando a parte preta virada para a tábua de corte e com a ajuda de uma faca bem afiada – que é muito útil, pois o couro da língua é grosso e resistente – retire toda aquela parte que está “pendurada” digamos assim.

Você pode ver onde ficava essa parte, pelo pedaço que falta na língua.

Agora entra uma parte que você vai ter que sentir nas pontas dos dedos. Daí é que entra aquela coisa de cozinhar todo o dia e conhecer o ingrediente. Minha vó já deve estar a uns 57 anos apalpando línguas e sabe de olhos fechados, com alguém fazendo cócegas e tocando sepultura no talo quais são as partes da língua que são mais grossas e quais são mas finas. Nesse caso, a dica é a seguinte: Deslize os dedos pela língua e sinta onde a pele é mais grossa. Não existe uma regra ou lugar certo pra procurar, cada língua é diferente uma da outra, por isso, não seja tímido e entre em contato direto com o seu futuro almoço.

Onde as partes forem mais grossas, retire-as. Lembrando que a faca tem que estar bem afiada!

Repita o processo com o restante das línguas e….

A segunda parte já já está por aqui…

O Festim dos Rigueirais – Parte II

Continuando…

Depois de cozinhar todas as carnes escorra o caldo do cozimento em outra panela. Reserve as carnes na panela onde foram cozidas com ela tampada, já que sem o líquido sua tendência em ressecar é maior. O caldo vai ser usado pra cozinhar os vegetais, garantindo mais sabor ao puchero.

Olha o caldo aí!

Quando você começar a cozinhar, deve seguir uma regra de ouro meu caro: Todos os vegetais devem ser cozidos até o meio do seu ponto. Pode parecer bobagem, mas faz toda diferença. Se você cozer até que eles estejam no ponto correto, mesmo fora do caldo eles vão continuar cozinhando e ficarão moles e opacos. Se você deixar no meio do ponto, quando eles voltarem pro caldeirão vão ficar com as cores e texturas corretas.

O processo de cozimento deve ser feito de forma lenta e com cuidado, nada de pressa. Se você tiver pressa todo o esforço feito lá trás não vai valer de nada. Vai ficar bom, mas não aquele “bom” que faz você viajar de volta a infância. Vá com calma, aprecie o processo.

Comece pelas cenouras

As cenouras...

Depois a abóbora

A abóbora...

As abobrinhas

As abobrinhas

O repolho

O repolho

A couve, em folhas inteiras

A couve

E por último, – ufa! – as cebolas…

As cebolas

Volte então o caldo e todos os vegetais cozidos à panela das carnes e deixe cozinhar em fogo lento até que tudo esteja macio, mas não se desfazendo.

O acompanhamento perfeito pra mim é arroz de açafrão e uma piscina de azeite…

O prato perfeito

E uma família que eu amo mais do que cozinhar.

Eles são todos malucos, mas eu amo cada um

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