@Rangocamp, Chef-à-Porter e Um Jantar Em Uma Hora

E lá fomos nós comer, beber e cozinhar… Tem coisa melhor?

Nesse domingo aconteceu na incrível cozinha da Matilde o primeiro @rangocamp ou “todos os blogueiros que falam sobre comida, dentro de uma casa mais do que gostosa, cozinhando, comendo, bebendo e conversando como se o mundo fosse acabar amanhã”. A idéia do encontro é que cada um trouxesse um prato pronto de casa ou cozinhasse alguma coisa lá mesmo, em uma hora, usando os fogões, forno a lenha ou churrasqueira que estariam à disposição dos comilões.

Fiquei pensando: Uma hora, uma hora… Mas em uma hora dá pra fazer uma refeição completa! E foi essa a minha idéia-desafio, mostrar que com uma hora, 60 minutos, 3.600 segundos você consegue preparar uma refeição de três tempos (entrada, prato principal e sobremesa) e impressionar até aquele seu amigo mala, que fica dizendo que a comida demorou.

O menu preparado foi o seguinte:

Entrada: Salada morna de batatas com surubim defumado, jambú e dill.

Pratro principal: Saint Peter no papilote com leite de coco, cebolas roxas, alho poró e cogumelos

Sobremesa: Cartola (não é a de por na cabeça, mas o doce pernambucano de banana e queijo coalho)

Pra mostrar que a coisa era totalmente possível de ser feita sem pressa, afobação, desespero e caos completo na cozinha, levei todos os ingredientes em estado bruto e os lapidei lá.

A grande sacada quando você está fazendo diversos pratos ao mesmo tempo – e isso demorou algum tempo pra eu perceber e conseguir executar com sucesso – é que todos os seus movimentos e ações devem ser pensados. O tempo de cozimento de alguns alimentos dá espaço para que você faça outra coisa. Re-trabalhos também devem ser evitados, já que a coisa mais improdutiva dentro de uma cozinha é fazer a mesma coisa duas vezes. Uma dose de  organização também ajuda a não transformar a sua bancada na segunda guerra mundial e atenção e limpeza garantem que você e a sua cozinha – que é o que mais importa, já que é você que vai limpar ela no final – não fiquem inteiros manchados ou sujos de respingos de molho ou coisa parecida. Então vamos lá, recapitulando:

1 – Calma! Pense em todos os passos e como irá executá-los

2 – Organize o seu espaço de trabalho com todos os utensílios e ingredientes que vai usar

3 – Ponha uma música ou faça um drink pra acompanhar. Ajuda bastante também!

Excepcionalmente nesse post não vou mostrar como se faz os pratos passo a passo, afinal, temos só uma hora pra fazer a coisa acontecer e as pessoas já vieram xeretar o que você está fazendo.

Para que você entenda por completo a dinâmica da coisa, não leia, repito, não leia o texto inteiro de uma só vez. Obedeça ao vai e vem e a correria da cozinha. Não se preocupe, você vai entender.

Vamos lá!

Entrada: Salada morna de batatas com surubim defumado, jambú e dill.

Ingredientes:

–  500 gr de batatas bolinha

– 100 gr de surubim defumado

– 1 punhado de dill

– 1 punhado de jambú (aquela erva amazônica famosa que amortece a boca)

– Sal a gosto

– Pimenta do reino moída na hora a gosto

– Azeite extra virgem a gosto

Modo de Preparo:

Lave as batatas e as coloque para cozinhar com casca em um litro de água com sal a gosto. Lembra do que eu falei sobre o tempo de cozimento dos ingredientes? Enquanto a batata cozinha, você faz o prato principal! Corre pra lá!

Hiiiii…ainda estão um pouco duras. Mas tudo bem, nesse tempo você faz a sobremesa! Veja lá embaixo como é rápido!

Não falei? Estão cozidas mais ainda firmes. Escorra as batatas e sobre a uma tábua, dê pequenos murros  para que fiquem amassadas. Assim os sabores que você vai acrescentar irão penetrar melhor e garantir um resultado fantástico. Em uma vasilha tempere as batatas com sal, pimenta do reino moída na hora, o jambú e o dill picados. Rasgue as fatias de surubim defumado com as mãos e acrescente as batatas, além de uma porção generosa de azeite. Mexa vigorosamente para que o sabor penetre nas batatas e deixe descansando por alguns minutos, cobrindo o recipiente com plástico filme, concentrando todo o seu aroma, calor e sabor.

Agora é só por a mesa e seguir a ordem que está lá em baixo!

Prato Principal: Saint Peter no papilote com leite de coco, cebolas roxas, alho poró e cogumelos

Ingredientes:

– 2 filés de Saint Peter Limpos e sem espinhas

– 1 talo de alho poro

– 2 cebolas roxas grandes

– 16 cogumelos shitake de tamanho médio

– 1 garrafa pequena de leite de coco

– 2 dentes de alho

– 2 pimentas de cheiro

– Sal a gosto

– Pimenta do reino moída na hora a gosto

– Papel manteiga para cozinha

Modo de Preparo:

Enquanto a batata cozinha corte o alho poro, as cebolas e o alho em fatias finas. Aqueça uma frigideira com um pouco de azeite, adicione a cebola e cozinhe até que fique levemente translúcida. Junte então o alho, o alho poro e cozinhe até que fiquem macios, mas com a sua cor original. Junte então o leite de coco, as pimentas de cheiro picadas e deixe o molho cozinhar levemente em fogo brando.

Enquanto a mágica acontece no molho, retire o cabo dos cogumelos, lave-os e coloque quatro deles no sentido de uma fila sobre um quadrado de 20 cm por 20 cm de papel manteiga. Tempere o filé de peixe com sal e pimenta do reino moído na hora e deite-o sobre os cogumelos. Nesse tempo, o molho já está pronto! Mexa bem para incorporar todos os sabores, acerte o sal e cubra o filé de peixe com ele, espalhando mais quatro cogumelos sobre o molho. Dobre o papel manteiga na forma de um envelope – da forma como você preferir, só não rasgue o papel pelo amor de deus, ou o molho vai vazar todo – e coloque sobre uma assadeira. Repita o processo com o outro filé e leve os dois ao forno a 130 graus até que os envelopes fiquem estufados.

Pronto, um já foi, faltam dois. Como será que estão as batatas, vamos ver? Volte lá pra receita delas…

Cartola

Ingredientes:

– 5 bananas maça maduras

– 100 gr de açúcar

– Canela em pó a gosto

– 100 gr de queijo de coalho

Modo de Preparo:

Em uma frigideira espalhe o açúcar e faça um caramelo claro, despejando-o no fundo de uma assadeira. Descasque e corte as bananas no sentido do comprimento, arrumando uma a uma dentro de uma assadeira. Não precisa ficar direitinho, só garanta que todas elas fiquem no mesmo nível. Salpique com canela em pó a gosto e cubra com fatias finas de queijo de coalho. Não leve ao forno ainda, se não os aromas vão se misturar no forno – lembra que o peixe está lá? – e você vai comer uma sobremesa com gosto de moqueca. Credo.

Volta lá pra entrada, aposto que as batatas já estão no ponto!

Pronto! Se você conseguiu seguir a programação, digamos assim, a salada já está pronta pra ser atacada, o peixe está quase no ponto e a sobremesa está montada e pronta pra entrar no forno. Sirva as batatas e quando você tiver acabado, o peixe já vai estar pronto.

Sirva o peixe e coma sem pressa ou preocupação, você já correu demais por hoje! Quando tiver chegado ao fim, coloque a sobremesa no forno e aproveite o tempo pra tirar os pratos da mesa, o que deve demorar uns 3 minutos.

Quando os pratos de sobremesa já estiverem postos, sirva a sobremesa.

Não falei que dava tempo de tudo?

Risoto

É chegada à hora!

Se você como ¾ da humanidade vai até um restaurante e paga uma pequena fortuna por um bom risoto, saiba que você foi enganado a vida toda. Além de ser muito fácil de fazer, o modo de preparo do arroz é a mesma e você não precisa comprar aquele gorgonzola ou azeite trufado para ter um bom risoto. Claro que é preciso usar o bom senso, não vá colocar algo sem gosto como chuchu, por favor. O que vale aqui é a criatividade em transformar um ingrediente trivial em algo novo e incrível, gastando pouco ou usando até mesmo o que você já tem na geladeira. Ontem à noite preparei aqui em casa – aproveitando o clima de urso polar que fazia – um de cogumelos porcini.          Eu sei que não é uma coisa que todo mundo tem em casa, mas ter um lado italiano na família garante esse tipo de ingrediente permanentemente na sua dispensa.

Risoto Porcini

Ingredientes:

– 200 gr de arroz arbóreo

– 100 gr de manteiga

– 1 cebola grande picada

– 2 dentes de alho picados

– 200 ml de vinho branco seco

– 250 de cogumelos porcini desidratados

– 500 ml de água morna

– Salsinha a gosto

– Azeite a gosto

Nota: Esse tipo de cogumelo você não vai conseguir achar fresco, somente seco. Usei italianos na receita, mas chilenos ou uruguaios (que são bem mais baratos), não fazem feio e garantem um bom resultado.

Modo de Preparo:

Em uma recipiente junte a água com os cogumelos e espere que eles hidratem, o que leva cerca de dez minutos. A seguir retire os cogumelos da água e os pique grosseiramente, reservando também a água em que eles foram hidratados. É com essa água que adquiriu uma cor escura, um perfume e sabor pronunciado dos cogumelos que você vai cozinhar o risoto.  Em uma frigideira aqueça o azeite e doure o alho, acrescentando em seguida os cogumelos. Quando eles ficarem macios, reserve.

Já pro alho!

Em uma panela grande em fogo médio comece derretendo 50 gr da manteiga e dourando a cebola. Uma observação bacana é que quanto mais você dourar a cebola, mas potente será o gosto dela dentro do risoto. Como o risoto é de porcini e tem assim um sabor forte, doure a cebola com gosto, acrescentando o arroz em seguida.

Cebolas douradinhas...é a hora do arroz

Mexa a mistura por cerca de dois minutos sem parar, acrescentando então o vinho branco.

A hora do vinho

Abaixe então o fogo e comece a mexer o arroz sem parar. Você vai reparar que o amido do próprio arroz começa a fazer ele ficar cremoso e que muito vapor vai ser liberado nessa hora. É nele que está a “deixa” para se colocar o caldo. Quando o vapor não tiver mais um cheiro pronunciado de álcool do vinho, junte a água dos cogumelos.

Colocando o caldo...

Não pare de mexer!

A proporção áurea do risoto é sempre uma parte de arroz por três de líquido, mas o que vale aqui é o já famoso exercício de observação e prova. Vá acrescentando líquido aos poucos e provando o arroz até que ele esteja no ponto em que você preferir. Mais firme, mais cozido, não importa, só importa como você gosta e com quem vai dividir.

Pronto! O arroz chegou aonde você queria. Desligue o fogo e acrescente o restante da manteiga, mexendo sempre. A manteiga vai dar um brilho bonito ao risoto e um sabor e textura aveludados.

Cubra o risoto com os cogumelos e salsinha. E nada, é comer e ser feliz.

É só abrir o vinho

chefaporter.com.br | powered by WordPress with Grace Comunicação